domingo, 24 de maio de 2026

A Palavra que julga a Reforma: Barth, Calvino e a liberdade da Palavra diante da tradição reformada

 A obra de Karl Barth sobre a teologia de João Calvino deve ser lida menos como uma monografia sistemática acabada e mais como um texto de passagem, produzido num momento decisivo da trajetória do próprio Barth. Em 1921/1922, recém-chegado a Göttingen como professor de Teologia Reformada, Barth se viu diante da tarefa de compreender a tradição reformada a partir de seus documentos clássicos. Calvino foi, nesse contexto, seu primeiro grande tema de exposição. O curso, inicialmente planejado para tratar de modo amplo da pregação, da exegese, da polêmica e do sistema teológico calviniano, acabou se detendo longamente nos pressupostos históricos, metodológicos e teológicos da questão. Essa limitação formal, longe de empobrecer a obra, acabou conferindo-lhe grande força interpretativa: Barth transforma a entrada na teologia de Calvino numa reflexão sobre a história, a tradição, a Reforma, a Idade Média, a Palavra e o juízo que essa Palavra lança sobre toda forma histórica da igreja.

Desde a introdução, Barth desloca o problema do passado para além da mera erudição historiográfica. Ao retomar a máxima segundo a qual a história é “mestra da vida”, ele a reinscreve em chave propriamente teológico-hermenêutica. A história não é apenas o registro moral das ações humanas, nem um arquivo morto disponível à curiosidade acadêmica; ela é o campo no qual, de modo mediado, tenso e nunca imediatamente transparente, a dinâmica da Palavra em relação à igreja pode ser discernida. Estudar Calvino, portanto, não significa apenas reconstruir aquilo que ele disse entre 1509 e 1564. Isso seria reduzir o passado a documento. Para Barth, o Calvino verdadeiramente histórico não é o Calvino encerrado em seu século, mas o Calvino vivo, isto é, aquele que, por meio de sua obra, ainda ensina, interpela e produz pensamento. A historicidade de Calvino não consiste simplesmente em sua distância temporal, mas no fato de que sua palavra pode tornar-se presente como ensino, crítica e convocação.

Essa concepção de história impede duas leituras igualmente insuficientes da tradição reformada. De um lado, Barth recusa o historicismo positivista, que imagina compreender Calvino apenas porque reconstrói suas frases, suas fontes e suas circunstâncias. De outro, recusa o confessionalismo repetitivo, que pensa honrar Calvino simplesmente reproduzindo suas formulações. Aprender com Calvino não é repetir Calvino. É entrar em diálogo com ele, escutar aquilo que ele quis dizer, deixar-se conduzir por sua teologia e, precisamente por isso, assumir a responsabilidade de responder no presente. A tradição só permanece viva quando deixa de ser mera repetição. Ela se torna histórica quando acende no leitor uma inteligência própria, quando permite que a fidelidade ao passado se converta em novo ato teológico. A obra de Calvino não apenas ocorreu; ela ainda ocorre, cada vez que sua leitura nos obriga novamente a decidir diante da verdade que ela testemunha.

É à luz dessa hermenêutica que se deve compreender a discussão barthiana sobre Reforma e Idade Média. Barth não lê a Reforma como ruptura absoluta, como se Lutero, Zwinglio e Calvino tivessem instaurado a verdade cristã a partir do nada. Antes de tratar propriamente de Calvino, ele considera necessário situar a Reforma em relação ao período que a antecede, advertindo que poucos temas revelam tanto quanto esse a influência da posição histórica do intérprete sobre a imagem produzida do passado. A Reforma aparece, sim, como algo novo, sobretudo em Lutero: há nela uma luz estranha, uma diferença real, uma ruptura inegável no modo de compreender a graça, a fé, a igreja e a pregação. Mas essa novidade precisa ser pensada de modo rigorosamente teológico. O novo histórico da Reforma não é idêntico ao novo absoluto da Palavra. Aquilo que se manifesta nos reformadores é novo e diferente, mas não é “o” novo em sentido último. A Reforma participa da luz, mas não é a luz; testemunha a Palavra, mas não possui a Palavra; torna-se lugar de uma irrupção, mas não se converte em garantia permanente dessa irrupção.

Essa distinção é decisiva porque impede que o protestantismo transforme a Reforma em novo mito fundador. Se a Reforma fosse identificada imediatamente com o novo absoluto, ela se tornaria uma nova forma de sacralização histórica. O protestantismo faria consigo mesmo aquilo que criticou em Roma: converteria uma mediação histórica em instância última. Barth evita esse caminho ao deslocar a oposição decisiva. A oposição fundamental não é, em última instância, entre Idade Média e Reforma, nem entre catolicismo romano e protestantismo, mas entre Palavra e incredulidade, entre revelação e tentativa religiosa de apropriação da revelação. Por isso, a Idade Média não pode ser simplesmente confundida com trevas, assim como a Reforma não pode ser simplesmente identificada com luz pura. O velho e o novo atravessam as épocas. A incredulidade pode habitar formas religiosas reformadas, assim como a Palavra pode ter preservado testemunhos verdadeiros em espaços que a polêmica protestante posterior preferiu desqualificar de modo sumário.

Daí a riqueza dialética da leitura de Barth. A Reforma depende do que a antecede, nasce dentro da linguagem, das instituições, dos conflitos e das categorias recebidas da cristandade medieval. Lutero pensa como monge, a partir de problemas herdados da teologia medieval, ainda que suas descobertas o arranquem de dentro desse mundo. Calvino, por sua vez, não apresenta sua teologia como inovação arbitrária, mas procura vinculá-la ao testemunho antigo da igreja. A ruptura existe, mas não como negação abstrata do passado. Ela se dá como reconfiguração do recebido. A Reforma é, portanto, uma reatualização crítica da tradição sob o impacto da Palavra. Ela não surge sem pressupostos, mas também não pode ser simplesmente deduzida deles. O novo irrompe no interior do antigo e, ao fazê-lo, reorganiza o sentido do próprio passado.

Essa reatualização, contudo, não deve ser confundida com plena consciência histórica dos próprios reformadores. Barth observa que Lutero e Calvino nem sempre perceberam a extensão histórico-teológica daquilo que realizavam. Eles combateram adversários imediatos, formas tardias da escolástica e expressões eclesiásticas concretas de seu tempo, mas não viram com total nitidez que seu verdadeiro ataque atingia algo muito mais profundo: o espírito da grande síntese medieval, simbolizada por Tomás de Aquino, pela Summa, pela catedral gótica e pelo mundo de Dante. Isso não diminui a Reforma; pelo contrário, mostra que os sujeitos históricos frequentemente realizam mais do que sabem. A Palavra opera numa desproporção entre intenção consciente e efeito histórico. Os reformadores não eram senhores do acontecimento que protagonizavam.

O ponto decisivo é que, para Barth, Lutero teria compreendido a importância de sua própria obra de modo relativamente sóbrio: tratava-se do fato de que a Palavra voltava a ser anunciada de modo alto, fiel e puro. Mas aqui também é preciso preservar a dialética. Lutero podia falar da Palavra em sentido absoluto e eterno, mas também em sentido histórico-relativo: a Palavra que segue seu curso, que vem e vai, que cai como chuva passageira, que pode ser expulsa, obscurecida ou não ouvida. A Reforma pertence a esse segundo registro. Ela é uma ocorrência histórica da Palavra, não a posse definitiva da Palavra. É acontecimento, não propriedade; testemunho, não garantia; irrupção, não capital confessional acumulável.

É exatamente daí que emerge uma das implicações mais radicais da obra logo em sua seção inicial: a Palavra que julgou a igreja medieval pode julgar também a própria Reforma e suas igrejas herdeiras. Essa formulação deve ser entendida como desdobramento teológico coerente do argumento de Barth, e não como simples frase literal extraída do texto. A Reforma não é o tribunal último diante do qual toda a história da igreja deve comparecer. O tribunal último é a Palavra. E essa Palavra, por ser livre, soberana e não apropriável, volta-se também contra a própria tradição que dela recebeu sua forma histórica mais decisiva. A Reforma só permanece teologicamente verdadeira enquanto permanece exposta ao juízo da Palavra que a tornou possível.

Nessa perspectiva, é legítimo sugerir que as trevas podem se abater também sobre a igreja reformada. A formulação, porém, exige precisão. Não se trata de dizer que a Palavra deixa de ser Palavra em si mesma. Trata-se de reconhecer que, no plano histórico da pregação, da escuta e da vida eclesial, ela pode ser obscurecida, substituída, domesticada ou silenciada. Uma igreja pode continuar usando a gramática da Reforma e, ainda assim, anunciar outra coisa: identidade denominacional, moralismo pequeno burguês, ideologia religiosa, nacionalismo, nostalgia confessional, ortodoxia morta ou simples autorreferência institucional. Nesse caso, a linguagem reformada pode sobreviver como forma, enquanto a Palavra que a originou deixa de ser efetivamente ouvida como juízo e promessa.

Isso confere à Reforma uma radicalidade que não se esgota no século XVI. Ser reformado, em chave barthiana, não significa pertencer a uma linhagem eclesiástica automaticamente preservada pela memória de Lutero, Zwinglio ou Calvino. Significa estar permanentemente exposto ao juízo da Palavra que reformou a igreja uma vez e que pode reformá-la de novo contra suas próprias autodefesas. A conhecida fórmula “ecclesia reformata semper reformanda” pode ser evocada aqui apenas em sentido interpretativo, desde que não seja transformada em slogan progressista genérico nem em adorno identitário. Sua força teológica dependeria de sua subordinação à tese maior: a igreja está sempre sob a Palavra, nunca acima dela, nunca em sua posse, nunca dispensada de ouvi-la novamente.

A consequência é severa. A Reforma não pode ser transformada em monumento contra Roma, contra o medievo ou contra qualquer outro inimigo externo. Ela é, antes, testemunha histórica da liberdade da Palavra diante de toda igreja. Seu significado não está em oferecer ao protestantismo uma superioridade ontológica sobre outras tradições cristãs, mas em lembrar que a Palavra pode ressoar novamente onde parecia abafada, e também pode deixar de ser historicamente ouvida em lugares que se julgavam seus proprietários. A Palavra que cria a Reforma permanece acima da Reforma. A Palavra que autorizou a crítica reformadora permanece livre para criticar o protestantismo. A Palavra que julgou a igreja do século XVI continua julgando a igreja reformada sempre que esta confunde herança com posse, doutrina com escuta, confissão com obediência e tradição com garantia.

Por isso, a introdução da obra de Barth sobre Calvino já contém uma advertência teológica de grande atualidade. A Reforma não deve ser celebrada apenas como origem gloriosa, mas recebida como evento de juízo. Ela nos obriga a perguntar se aquilo que anunciamos e ouvimos ainda corresponde à Palavra ou se, sob nomes corretos, passamos a anunciar outra coisa. Em Barth, a tradição reformada não encontra fundamento para triunfalismo confessional, mas uma convocação à inquietação teológica. A Palavra não é posse da igreja; é seu fundamento, seu limite, sua crise e sua esperança. E exatamente por isso a Reforma permanece radical: porque aquilo que a tornou necessária uma vez pode tornar-se necessário novamente, inclusive contra a própria igreja que se chama reformada.

Referências

BARTH, Karl. A teologia de João Calvino. [S. l.]: Edifique Editora, 2026. 532 p. ISBN 9786585717519.

sábado, 2 de maio de 2026

Direitos humanos, justiça social e o futuro do calvinismo no Brasil (II)

Foi publicado na PLURA, Revista de Estudos de Religião, v. 16, n. 2, 2025, o artigo “Direitos humanos, justiça social e o futuro do calvinismo no Brasil”, de Robson da Costa de Souza e Jefferson Evânio da Silva.

O texto propõe uma reflexão sobre as relações entre calvinismo, direitos humanos e justiça social no contexto brasileiro contemporâneo. Sua questão central é compreender como a tradição calvinista, historicamente marcada por múltiplas recepções e disputas, pode ser pensada diante das demandas atuais por dignidade humana, igualdade, equidade de gênero, justiça racial, pluralismo e inclusão social.

O artigo parte de uma perspectiva pós-estruturalista e genealógica. Isso significa que nem o calvinismo nem os direitos humanos são tratados como realidades homogêneas, estáveis ou plenamente transparentes. Ambos são compreendidos como formações discursivas atravessadas por disputas, cortes antagônicos, exclusões, reinterpretações e possibilidades de reinscrição histórica. Em vez de buscar uma conciliação simples entre tradição reformada e direitos humanos, o texto procura examinar as tensões que atravessam essa relação.

Um dos movimentos importantes do artigo é mostrar que o calvinismo não pode ser reduzido a uma única forma histórica. A tradição reformada comporta diferentes usos, recepções e apropriações. Em determinados contextos, ela foi mobilizada para sustentar formas de disciplina moral, controle social e fechamento identitário. Em outros, também contribuiu para processos de valorização da consciência, da responsabilidade, da liberdade religiosa, da organização comunitária e da crítica às formas tradicionais de autoridade.

Essa ambivalência é decisiva para o argumento. O artigo não apresenta o calvinismo apenas como obstáculo aos direitos humanos, nem o idealiza como matriz natural de emancipação. O que se propõe é uma leitura crítica de suas possibilidades e limites. De um lado, reconhece-se que a recepção majoritária do calvinismo no Brasil tem sido fortemente mediada por leituras conservadoras, muitas vezes associadas a agendas morais rígidas, disputas culturais e alinhamentos políticos à direita. De outro, o texto também procura identificar elementos internos à tradição reformada que podem ser rearticulados em direção à justiça social e à dignidade humana.

Nesse percurso, os direitos humanos também são submetidos a uma leitura crítica. O artigo não os toma apenas como linguagem universal, neutra e incontestável. A partir de autores como Boaventura de Sousa Santos, Judith Butler, Ernesto Laclau, Chantal Mouffe, Jacques Derrida, Michel Foucault e Slavoj Žižek, o texto discute os limites da concepção moderna e liberal de direitos humanos, especialmente quando ela opera a partir de uma ideia abstrata de “humano” que pode ocultar exclusões, desigualdades e hierarquias produzidas historicamente.

Assim, tanto o calvinismo quanto os direitos humanos são analisados a partir de suas tensões constitutivas. O calvinismo lida com a tensão entre soberania divina, responsabilidade humana, eleição, comunidade e obediência. Os direitos humanos, por sua vez, lidam com a tensão entre universalidade e particularidade, dignidade abstrata e pertencimento concreto, autonomia individual e condições materiais de existência. O artigo sugere que é justamente nesse espaço de tensão que se torna possível pensar novas articulações entre tradição religiosa e justiça social.

No caso brasileiro, a análise se concentra especialmente na apropriação conservadora do calvinismo. O texto examina como determinados setores reformados e neocalvinistas passaram a se articular a gramáticas político-religiosas conservadoras, com ênfase em temas como família, moralidade pública, educação, gênero, liberdade religiosa e presença cristã na esfera pública. Essa recepção, em muitos casos, aproximou a tradição reformada de projetos políticos marcados por forte polarização moral e por resistência a agendas progressistas.

O artigo também discute a presença de redes, instituições, intelectuais, lideranças e organizações que contribuíram para a circulação pública desse repertório. Nesse ponto, a reflexão se aproxima da análise do discurso religioso na esfera pública: ideias teológicas não permanecem confinadas ao interior das igrejas, mas circulam por editoras, cursos, associações, plataformas digitais, organizações jurídicas, universidades confessionais e espaços de formação política. A teologia, nesse sentido, não aparece apenas como doutrina, mas como linguagem capaz de produzir subjetividades, legitimar práticas e organizar formas de intervenção pública.

Ao mesmo tempo, o texto evita tratar o conservadorismo religioso brasileiro como resultado necessário da tradição calvinista. Essa é uma distinção importante. A apropriação conservadora do calvinismo é interpretada como uma possibilidade histórica, não como destino inevitável. Por isso, o artigo dedica uma parte significativa à discussão de protestantismos alternativos e de experiências reformadas mais abertas ao diálogo com justiça social, direitos humanos, igualdade de gênero, combate ao racismo e crítica às desigualdades estruturais.

Nesse horizonte, ganham destaque experiências vinculadas ao protestantismo ecumênico, ao cristianismo social, à Teologia da Missão Integral, à tradição reformada progressista e a movimentos contemporâneos que procuram reinterpretar o calvinismo a partir das demandas do presente. O artigo menciona, nesse contexto, a importância de nomes e trajetórias ligados ao protestantismo brasileiro, bem como o papel de documentos e redes internacionais reformadas comprometidas com justiça econômica, igualdade de gênero, responsabilidade ecológica e enfrentamento das opressões sociais.

A ideia de um possível “calvinismo da libertação” aparece, então, não como uma fórmula pronta, mas como provocação teórica e política. Trata-se de perguntar se a tradição reformada pode ser reaberta a partir da perspectiva dos sujeitos historicamente marginalizados. Em vez de uma tradição encerrada em sua recepção conservadora, o calvinismo é pensado como arquivo em disputa, capaz de ser reinscrito em novas gramáticas de responsabilidade pública, hospitalidade, equidade e justiça.

Esse ponto talvez seja uma das contribuições mais relevantes do artigo: recolocar o futuro do calvinismo brasileiro como problema aberto. O futuro da tradição não está dado por sua história institucional dominante, nem por seus usos conservadores mais recentes. Ele dependerá da capacidade de seus intérpretes, comunidades e instituições de reconhecerem suas próprias contradições e de se abrirem a novas articulações teológicas, sociais e políticas.

O artigo, portanto, não propõe uma reconciliação ingênua entre calvinismo e direitos humanos. Também não propõe uma ruptura simples entre religião e modernidade, fé e justiça, tradição e emancipação. Seu movimento é mais cuidadoso: identificar os antagonismos, reconhecer as exclusões, compreender as disputas de sentido e investigar as possibilidades de rearticulação.

Em um contexto no qual discursos religiosos continuam a exercer forte influência sobre a vida pública brasileira, “Direitos humanos, justiça social e o futuro do calvinismo no Brasil” oferece uma leitura importante para pensar as tensões entre tradição religiosa, democracia, justiça social e direitos humanos. O artigo interessa não apenas a pesquisadoras e pesquisadores das Ciências da Religião, mas também a quem estuda teologia política, sociologia da religião, protestantismo brasileiro, conservadorismo religioso, análise do discurso e disputas contemporâneas em torno da dignidade humana.

Sua contribuição está em mostrar que o calvinismo brasileiro não precisa ser compreendido apenas a partir de suas expressões hegemônicas atuais. Como toda formação discursiva, ele permanece atravessado por disputas, memórias, exclusões e possibilidades de reabertura. É justamente nesse campo de tensão que se coloca a pergunta pelo seu futuro: um futuro que poderá repetir formas de fechamento e exclusão, mas que também poderá ser reinscrito em direção à justiça, à dignidade e à vida comum.

Referências

DA COSTA DE SOUZA, Robson; DA SILVA, Jefferson Evânio. Direitos humanos, justiça social e o futuro do calvinismo no Brasil. PLURA, Revista de Estudos de Religião / PLURA, Journal for the Study of Religion, [S. l.], v. 16, n. 2, p. e160229, 2026. Disponível em: https://revistaplura.emnuvens.com.br/plura/article/view/2479. Acesso em: 2 maio. 2026.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Calvinismo, discurso e política: uma leitura crítica das disputas religiosas no Brasil contemporâneo

Foi publicado na revista Caminhos, v. 24, n. 1, jan./abr. 2026, o artigo “Entre a arqueologia e a genealogia: matrizes epistemológicas na análise do discurso religioso calvinista”, de Robson da Costa de Souza.

O texto procura contribuir para o campo das Ciências da Religião, especialmente para os estudos sobre religião, política, análise do discurso, teologia política e esfera pública. Sua proposta é examinar o calvinismo não apenas como um conjunto de doutrinas, credos, catecismos ou confissões, mas como uma formação discursiva em disputa, atravessada por rearticulações históricas, efeitos de poder, conflitos de interpretação e possibilidades de reinscrição ética e política.

O artigo parte de um deslocamento analítico: em vez de perguntar simplesmente “o que é o calvinismo?”, como se houvesse uma essência doutrinária plenamente recuperável, interessa compreender como o nome “calvinismo” funciona discursivamente em determinados contextos históricos. Quem pode falar em seu nome? Que vocabulários são autorizados? Que práticas são legitimadas? Que fronteiras são traçadas? Que formas de subjetivação são produzidas? E que efeitos essas articulações geram na esfera pública brasileira contemporânea?

Para enfrentar essas questões, o texto propõe um protocolo crítico de análise do discurso religioso, articulando quatro operadores teórico-metodológicos: arqueologia, genealogia, desconstrução e dialética em paralaxe. A arqueologia permite examinar as condições históricas que tornam certos enunciados possíveis e inteligíveis. A genealogia rastreia efeitos de poder-saber, dispositivos institucionais e processos de subjetivação. A desconstrução evidencia fissuras, hierarquias, suplementos e indecidíveis internos às tradições. A dialética em paralaxe, por sua vez, ajuda a manter visíveis antagonismos que não se deixam resolver por sínteses conciliatórias ou consensos apressados.

Um dos objetivos do artigo é justamente articular esses operadores como instrumentos de leitura. Com eles, torna-se possível acompanhar o percurso que vai do arquivo ao antagonismo, das regularidades enunciativas às disputas hegemônicas, dos dispositivos institucionais às fissuras internas da tradição, dos usos religiosos da linguagem aos seus efeitos políticos concretos.

No plano empírico, o artigo analisa como determinadas expressões contemporâneas do calvinismo brasileiro foram rearticuladas em diálogo com gramáticas político-religiosas conservadoras, redes acadêmicas, editoras, conferências, think tanks, instituições paraeclesiásticas e formas diversas de incidência pública. Termos como “cosmovisão”, “família”, “ordem moral”, “liberdade religiosa”, “Palavra de Deus” e “povo de Deus” aparecem não apenas como vocabulário religioso, mas como operadores discursivos capazes de organizar fronteiras, legitimar autoridades e produzir efeitos normativos na vida pública.

Nesse sentido, a noção de “cosmovisão” recebe atenção especial. Ela é tratada como um significante-nódulo capaz de conectar doutrina, moralidade, família, educação, Estado, cultura e política. Ao redor dela, articulam-se cadeias de equivalência que permitem transformar uma linguagem originalmente confessional em linguagem de intervenção pública. O artigo procura mostrar, assim, como determinados setores do protestantismo reformado traduzem categorias teológicas em repertórios de gestão moral da sociedade, frequentemente associados a agendas conservadoras e a disputas morais e culturais contemporâneas.

A análise também considera a importância das redes e dos dispositivos de circulação do discurso. O discurso religioso não circula de maneira abstrata ou espontânea. Ele depende de instituições, eventos, editoras, cursos, pareceres, lideranças, plataformas digitais, centros de formação e instâncias de legitimação. Esses espaços funcionam como máquinas de ressonância: estabilizam vocabulários, autorizam intérpretes, ampliam repertórios e conectam a linguagem teológica a disputas políticas mais amplas.

Ao mesmo tempo, o artigo procura evitar uma leitura simplificadora. O calvinismo não é apresentado apenas como matriz de fechamento, estabilização normativa ou exclusão. A análise parte da ambivalência própria das tradições discursivas, que permanecem atravessadas por fissuras, contradições e excedentes de sentido. Por isso, o mesmo repertório reformado que pode ser mobilizado para sustentar formas de fechamento identitário, exclusão ou controle moral também pode ser rearticulado em direção à hospitalidade, à justiça social, ao cuidado, ao pluralismo e à responsabilidade pública.

Esse ponto é importante para compreender o alcance da proposta. A crítica desenvolvida no artigo não pretende dissolver a tradição, nem reduzi-la a seus usos políticos mais problemáticos. Trata-se, antes, de compreendê-la em sua historicidade, em suas disputas internas e em suas possibilidades de reinscrição. A tradição, nessa chave, não aparece como monumento imóvel, mas como arquivo vivo, atravessado por disputas de memória, autoridade e interpretação.

O texto também procura recolocar o debate sobre o neoconservadorismo protestante brasileiro em uma chave discursiva. Em vez de tratá-lo apenas como inadequação teológica ou adesão conjuntural a lideranças políticas específicas, o artigo o interpreta como uma rearticulação discursiva. Essa rearticulação envolve afetos, instituições, gramáticas de pertencimento, mecanismos de autorização e disputas pela definição do comum. Com isso, a crítica desloca-se do juízo imediato para a análise das condições que tornam certas posições possíveis, eficazes e socialmente mobilizadoras.

Do ponto de vista teórico, o artigo mobiliza autores como Michel Foucault, Jacques Derrida, Ernesto Laclau, Chantal Mouffe, Slavoj Žižek e Karl Barth para pensar o discurso religioso na interseção entre filosofia, teologia política, teoria do discurso e análise das formas contemporâneas de subjetivação. A intenção não é apenas aproximar tradições teóricas distintas, mas explorar como cada uma delas pode contribuir para a leitura dos processos de estabilização, disputa e reabertura do discurso religioso.

Ao final, o artigo propõe mais do que uma interpretação do calvinismo brasileiro. Ele apresenta um modelo analítico que pode ser mobilizado no estudo de outras formações discursivas religiosas, políticas, jurídicas, educacionais ou morais. O protocolo sugerido pode ajudar a compreender como discursos se estabilizam, como produzem autoridade, como constroem fronteiras, como estabilizam normas e como, apesar disso, permanecem abertos à contestação e à reinvenção.

Em um contexto no qual discursos religiosos ocupam lugar cada vez mais visível nas disputas democráticas contemporâneas, o artigo busca oferecer uma ferramenta de leitura para compreender como tradições são mobilizadas, apropriadas, contestadas e reabertas no interior das lutas por hegemonia. Sua aposta crítica está em recusar dois atalhos: de um lado, o relativismo que dissolve todas as diferenças; de outro, a totalização que pretende encerrar a tradição em uma identidade fixa.

O argumento central é que o discurso religioso precisa ser analisado em sua materialidade, em sua historicidade e em seus efeitos. O calvinismo, nessa leitura, não é apenas doutrina, nem apenas herança confessional, nem simples reflexo de interesses políticos externos. Ele é uma formação discursiva atravessada por disputas, apropriações, antagonismos e possibilidades de reabertura.

Por isso, “Entre a arqueologia e a genealogia” pode interessar a pesquisadoras e pesquisadores das Ciências da Religião, da Sociologia da Religião, da Teologia Política, da Análise do Discurso, da Filosofia Política e dos estudos sobre conservadorismo religioso no Brasil contemporâneo. Seu alcance, contudo, não se limita ao campo específico do calvinismo: trata-se de uma proposta de leitura para pensar, de modo mais amplo, as relações entre linguagem, religião e poder nas disputas públicas do presente.

Referências

SOUZA, Robson da Costa de. Entre a arqueologia e a genealogia: matrizes epistemológicas na análise do discurso religioso calvinista. Caminhos, Goiânia, v. 24, n. 1, e15482, jan./abr. 2026. DOI: 10.18224/cam.v24i1.15482.

Entre a verdade e a tradução: Pannenberg, Derrida e a teologia pública depois da crítica

Os três volumes recentemente republicados da “Teologia Sistemática” de Wolfhart Pannenberg chegaram às minhas mãos, e comecei a lê-los com a...