Foi publicado na revista Caminhos, v. 24, n. 1, jan./abr. 2026, o artigo “Entre a arqueologia e a genealogia: matrizes epistemológicas na análise do discurso religioso calvinista”, de Robson da Costa de Souza.
O texto procura contribuir para o campo das Ciências da Religião, especialmente para os estudos sobre religião, política, análise do discurso, teologia política e esfera pública. Sua proposta é examinar o calvinismo não apenas como um conjunto de doutrinas, credos, catecismos ou confissões, mas como uma formação discursiva em disputa, atravessada por rearticulações históricas, efeitos de poder, conflitos de interpretação e possibilidades de reinscrição ética e política.
O artigo parte de um deslocamento analítico: em vez de perguntar simplesmente “o que é o calvinismo?”, como se houvesse uma essência doutrinária plenamente recuperável, interessa compreender como o nome “calvinismo” funciona discursivamente em determinados contextos históricos. Quem pode falar em seu nome? Que vocabulários são autorizados? Que práticas são legitimadas? Que fronteiras são traçadas? Que formas de subjetivação são produzidas? E que efeitos essas articulações geram na esfera pública brasileira contemporânea?
Para enfrentar essas questões, o texto propõe um protocolo crítico de análise do discurso religioso, articulando quatro operadores teórico-metodológicos: arqueologia, genealogia, desconstrução e dialética em paralaxe. A arqueologia permite examinar as condições históricas que tornam certos enunciados possíveis e inteligíveis. A genealogia rastreia efeitos de poder-saber, dispositivos institucionais e processos de subjetivação. A desconstrução evidencia fissuras, hierarquias, suplementos e indecidíveis internos às tradições. A dialética em paralaxe, por sua vez, ajuda a manter visíveis antagonismos que não se deixam resolver por sínteses conciliatórias ou consensos apressados.
Um dos objetivos do artigo é justamente articular esses operadores como instrumentos de leitura. Com eles, torna-se possível acompanhar o percurso que vai do arquivo ao antagonismo, das regularidades enunciativas às disputas hegemônicas, dos dispositivos institucionais às fissuras internas da tradição, dos usos religiosos da linguagem aos seus efeitos políticos concretos.
No plano empírico, o artigo analisa como determinadas expressões contemporâneas do calvinismo brasileiro foram rearticuladas em diálogo com gramáticas político-religiosas conservadoras, redes acadêmicas, editoras, conferências, think tanks, instituições paraeclesiásticas e formas diversas de incidência pública. Termos como “cosmovisão”, “família”, “ordem moral”, “liberdade religiosa”, “Palavra de Deus” e “povo de Deus” aparecem não apenas como vocabulário religioso, mas como operadores discursivos capazes de organizar fronteiras, legitimar autoridades e produzir efeitos normativos na vida pública.
Nesse sentido, a noção de “cosmovisão” recebe atenção especial. Ela é tratada como um significante-nódulo capaz de conectar doutrina, moralidade, família, educação, Estado, cultura e política. Ao redor dela, articulam-se cadeias de equivalência que permitem transformar uma linguagem originalmente confessional em linguagem de intervenção pública. O artigo procura mostrar, assim, como determinados setores do protestantismo reformado traduzem categorias teológicas em repertórios de gestão moral da sociedade, frequentemente associados a agendas conservadoras e a disputas morais e culturais contemporâneas.
A análise também considera a importância das redes e dos dispositivos de circulação do discurso. O discurso religioso não circula de maneira abstrata ou espontânea. Ele depende de instituições, eventos, editoras, cursos, pareceres, lideranças, plataformas digitais, centros de formação e instâncias de legitimação. Esses espaços funcionam como máquinas de ressonância: estabilizam vocabulários, autorizam intérpretes, ampliam repertórios e conectam a linguagem teológica a disputas políticas mais amplas.
Ao mesmo tempo, o artigo procura evitar uma leitura simplificadora. O calvinismo não é apresentado apenas como matriz de fechamento, estabilização normativa ou exclusão. A análise parte da ambivalência própria das tradições discursivas, que permanecem atravessadas por fissuras, contradições e excedentes de sentido. Por isso, o mesmo repertório reformado que pode ser mobilizado para sustentar formas de fechamento identitário, exclusão ou controle moral também pode ser rearticulado em direção à hospitalidade, à justiça social, ao cuidado, ao pluralismo e à responsabilidade pública.
Esse ponto é importante para compreender o alcance da proposta. A crítica desenvolvida no artigo não pretende dissolver a tradição, nem reduzi-la a seus usos políticos mais problemáticos. Trata-se, antes, de compreendê-la em sua historicidade, em suas disputas internas e em suas possibilidades de reinscrição. A tradição, nessa chave, não aparece como monumento imóvel, mas como arquivo vivo, atravessado por disputas de memória, autoridade e interpretação.
O texto também procura recolocar o debate sobre o neoconservadorismo protestante brasileiro em uma chave discursiva. Em vez de tratá-lo apenas como inadequação teológica ou adesão conjuntural a lideranças políticas específicas, o artigo o interpreta como uma rearticulação discursiva. Essa rearticulação envolve afetos, instituições, gramáticas de pertencimento, mecanismos de autorização e disputas pela definição do comum. Com isso, a crítica desloca-se do juízo imediato para a análise das condições que tornam certas posições possíveis, eficazes e socialmente mobilizadoras.
Do ponto de vista teórico, o artigo mobiliza autores como Michel Foucault, Jacques Derrida, Ernesto Laclau, Chantal Mouffe, Slavoj Žižek e Karl Barth para pensar o discurso religioso na interseção entre filosofia, teologia política, teoria do discurso e análise das formas contemporâneas de subjetivação. A intenção não é apenas aproximar tradições teóricas distintas, mas explorar como cada uma delas pode contribuir para a leitura dos processos de estabilização, disputa e reabertura do discurso religioso.
Ao final, o artigo propõe mais do que uma interpretação do calvinismo brasileiro. Ele apresenta um modelo analítico que pode ser mobilizado no estudo de outras formações discursivas religiosas, políticas, jurídicas, educacionais ou morais. O protocolo sugerido pode ajudar a compreender como discursos se estabilizam, como produzem autoridade, como constroem fronteiras, como estabilizam normas e como, apesar disso, permanecem abertos à contestação e à reinvenção.
Em um contexto no qual discursos religiosos ocupam lugar cada vez mais visível nas disputas democráticas contemporâneas, o artigo busca oferecer uma ferramenta de leitura para compreender como tradições são mobilizadas, apropriadas, contestadas e reabertas no interior das lutas por hegemonia. Sua aposta crítica está em recusar dois atalhos: de um lado, o relativismo que dissolve todas as diferenças; de outro, a totalização que pretende encerrar a tradição em uma identidade fixa.
O argumento central é que o discurso religioso precisa ser analisado em sua materialidade, em sua historicidade e em seus efeitos. O calvinismo, nessa leitura, não é apenas doutrina, nem apenas herança confessional, nem simples reflexo de interesses políticos externos. Ele é uma formação discursiva atravessada por disputas, apropriações, antagonismos e possibilidades de reabertura.
Por isso, “Entre a arqueologia e a genealogia” pode interessar a pesquisadoras e pesquisadores das Ciências da Religião, da Sociologia da Religião, da Teologia Política, da Análise do Discurso, da Filosofia Política e dos estudos sobre conservadorismo religioso no Brasil contemporâneo. Seu alcance, contudo, não se limita ao campo específico do calvinismo: trata-se de uma proposta de leitura para pensar, de modo mais amplo, as relações entre linguagem, religião e poder nas disputas públicas do presente.
Referências
SOUZA, Robson da Costa de. Entre a arqueologia e a genealogia: matrizes epistemológicas na análise do discurso religioso calvinista. Caminhos, Goiânia, v. 24, n. 1, e15482, jan./abr. 2026. DOI: 10.18224/cam.v24i1.15482.
