A distinção entre “Trindade imanente” e “Trindade econômica” procura responder a uma das questões fundamentais da teologia cristã: qual é a relação entre Deus tal como é em sua própria vida e Deus tal como se manifesta e atua na história da salvação? Tradicionalmente, chama-se Trindade imanente à comunhão eterna de Pai, Filho e Espírito Santo considerada em sua própria realidade divina, enquanto a expressão Trindade econômica designa essa mesma diferenciação trinitária tal como se dá na criação, na história de Israel, na encarnação, na cruz, na ressurreição e na atuação do Espírito. A distinção parece inicialmente simples, mas contém uma dificuldade decisiva. Se a economia apenas manifesta exteriormente uma realidade divina completamente constituída antes e independentemente da história, corre-se o risco de transformar a revelação em representação de algo que permanece, em última instância, situado atrás dela. Se, ao contrário, aquilo que acontece na história pertence efetivamente ao próprio ser de Deus, torna-se necessário perguntar em que sentido Deus pode ser eterno e, simultaneamente, possuir história, mudança, novidade e futuro. A questão não diz respeito apenas à linguagem mais apropriada para descrever a Trindade; toca diretamente o estatuto ontológico da revelação. A história de Jesus Cristo manifesta quem Deus eternamente já é ou participa, de alguma maneira, da própria constituição de quem Deus é?
A teologia trinitária do século XX tornou esse problema particularmente agudo. A conhecida regra de Rahner, segundo a qual a Trindade econômica é a Trindade imanente e vice-versa, condensou uma transformação decisiva: não possuímos primeiro um saber acerca da vida intradivina para, posteriormente, interpretar sua manifestação histórica; é na economia da salvação que Deus se oferece ao conhecimento como aquele que é (Rahner, 1997). Isso não elimina automaticamente toda distinção entre imanência e economia, mas impede que ambas sejam pensadas como dois planos independentes. A cruz, a ressurreição e a promessa escatológica tornam a dificuldade ainda mais incisiva. Se esses acontecimentos apenas exteriorizam temporalmente uma verdade integralmente concluída na eternidade, aquilo que neles ocorre pode ser decisivo para nós, mas não para Deus; a história seria o lugar de nossa descoberta, não da realidade divina. Se, porém, a economia participa efetivamente do que Deus é, história e eternidade já não podem ser distribuídas entre uma superfície temporal e uma profundidade metafísica imune ao devir. É nesse campo que a diferença entre Jürgen Moltmann e Wolfhart Pannenberg se torna particularmente produtiva. Moltmann leva muito longe a entrada da história na própria vida trinitária: cruz, sofrimento e relações entre Pai, Filho e Espírito não são apenas manifestações temporais de um Deus previamente intacto, mas pertencem à história de Deus (Moltmann, 2011). Pannenberg acompanha esse deslocamento, porém preserva uma cautela fundamental: a economia manifesta verdadeiramente quem Deus é, sem que a história possa converter-se no processo pelo qual Deus finalmente adquire sua divindade (Pannenberg, 2025).
Essa cautela é especialmente visível na determinação relacional das pessoas trinitárias. Pai, Filho e Espírito não são três sujeitos previamente constituídos que, num segundo momento, entram em relação. O Pai é Pai em sua relação com o Filho; o Filho constitui sua identidade na autodistinção perante o Pai, na entrega e na glorificação do Pai; o Espírito se determina em sua relação com ambos e na comunhão que realiza. As relações intratrinitárias não incidem, portanto, sobre identidades acabadas, mas participam da determinação pessoal de cada uma delas. Pannenberg desloca, assim, a metafísica da substância em direção a uma ontologia fortemente relacional. Entretanto, a radicalidade desse movimento encontra seu limite quando se pergunta pela unidade das três pessoas. Se elas se constituem relacionalmente, o que faz dessas relações precisamente a vida do único Deus? A pericórese, entendida como mútua inabitação de Pai, Filho e Espírito, não parece suficiente para fundar sozinha a unidade, porque já pressupõe aquilo que deveria explicar: para que três pessoas habitem reciprocamente umas nas outras como o único Deus, é preciso que a unidade divina esteja de algum modo pressuposta. A essência retorna, então, não necessariamente como uma quarta realidade situada atrás das pessoas, mas como o fundamento da unidade que suas relações, por si mesmas, não parecem conseguir produzir. Surge uma circularidade constitutiva: a essência divina somente existe concretamente como Pai, Filho e Espírito, mas Pai, Filho e Espírito somente são o único Deus porque compartilham a única essência divina.
Não se trata de uma contradição formal, mas de uma tensão sistemática. Pannenberg deseja que as relações sejam constitutivas de quem Deus é, mas não está disposto a fazer delas o fundamento último de que Deus seja Deus. A metafísica da substância é profundamente deslocada, porém não completamente abandonada: a essência deixa de poder ser concebida como realidade indiferenciada anterior às pessoas, mas permanece necessária para impedir que a unidade divina seja transformada em simples produto das relações. O mesmo movimento reaparece em sua escatologia. Para Pannenberg, a verdade possui uma dimensão irredutivelmente histórica porque o sentido de uma parte somente pode ser definitivamente estabelecido a partir do curso da história em que está inscrita. Enquanto a história permanece inconclusa, permanece inconclusa também a disputa acerca de seu sentido. A pretensão cristã de que a história de Jesus constitui a revelação decisiva de Deus não comparece no presente como evidência universalmente incontestável. A ressurreição adquire, por isso, função decisiva: ela é prolepticamente antecipação do fim, acontecimento no qual aquilo que somente será plenamente manifesto escatologicamente irrompe antecipadamente no interior da história.
É daí que deriva o estatuto peculiar da fé e, correlativamente, da descrença. A fé não é simples arbitrariedade subjetiva, porque se ancora numa antecipação histórica do futuro escatológico; mas tampouco é visão daquilo que já está integralmente disponível, porque a consumação ainda não ocorreu. Ela reconhece antecipadamente aquilo cuja verdade universal somente poderá mostrar-se no fim. A descrença, por sua vez, permanece historicamente possível precisamente porque a história ainda não atingiu o ponto a partir do qual sua verdade se tornaria incontestável. Pannenberg pode, portanto, sustentar que somente na consumação o litígio entre fé e descrença será definitivamente decidido. A afirmação é mais forte do que dizer que, no fim, os descrentes descobrirão que os cristãos estavam certos: se Deus é aquele que determina o sentido último da realidade, então sua verdade somente poderá tornar-se universalmente manifesta quando a própria história alcançar aquilo que Pannenberg concebe como sua consumação. Entretanto, essa abertura conhece um limite fundamental: o futuro decidirá a verdade de Deus para a história, mas não produzirá a divindade de Deus. O Deus cuja verdade será manifesta no fim já é eternamente Deus. A consumação não transformará em Deus aquilo que anteriormente não o era; tornará definitivamente patente aquilo que sempre foi verdadeiro.
É justamente aí que se instala o impasse. Pannenberg concede ao futuro um peso muito maior do que aquele que possuiria numa metafísica em que a história apenas exterioriza temporalmente uma realidade concluída fora dela, mas recusa que esse peso alcance plenamente a própria identidade divina. O futuro deve ser realmente decisivo sem poder decidir se Deus é Deus. A história está aberta, mas a divindade não; a manifestação da verdade de Deus possui futuro, mas aquilo que faz de Deus Deus permanece ontologicamente resguardado dessa abertura. Isso produz uma assimetria particularmente clara entre fé e descrença: para os sujeitos históricos, a questão continua efetivamente aberta; ontologicamente, entretanto, encontra-se resolvida. A fé antecipa aquilo que necessariamente se mostrará verdadeiro, enquanto a descrença permanece historicamente compreensível, mas já está condenada ao erro antes mesmo que o processo capaz de demonstrá-lo tenha alcançado seu termo. O fim parece, assim, decidir uma disputa cujo resultado, em outro nível, jamais esteve verdadeiramente em disputa.
O chamado teísmo aberto desloca parte dessa dificuldade ao recusar que o futuro seja uma totalidade já existente em estado antecipado. Se há possibilidades realmente abertas, o futuro não é apenas desconhecido pelas criaturas, mas tampouco existe como sequência única e integralmente determinada. Deus entra em relações efetivas, responde a acontecimentos e participa de uma história cuja concretização envolve novidade real. Formulações contemporâneas da teologia aberta e relacional, como a de Thomas Jay Oord, radicalizam precisamente a temporalidade e a responsividade de Deus e fazem do amor relacional o eixo de sua compreensão teológica (Oord, 2026). Contudo, o problema reaparece em outra forma. O futuro pode estar aberto para Deus sem que esteja aberto o fato de Deus ser Deus. Em Oord, a novidade da história não coloca em questão a centralidade ontológica do amor divino; é justamente determinada compreensão de Deus como amor que estrutura sua maneira não controladora de relacionar-se com a criação. Deus possui futuro, mas aquilo que constitui fundamentalmente sua divindade não é simplesmente entregue ao futuro. A abertura é real, porém circunscrita.
A questão decisiva passa, então, a ser se não poderíamos radicalizar o movimento que Pannenberg inicia, mas interrompe. Se a identidade pessoal de Pai, Filho e Espírito é efetivamente constituída pelas relações e se a economia não é exterior à vida divina, por que conservar uma Trindade imanente cuja função última seja garantir antes da história aquilo que a história posteriormente manifestará? Por que não afirmar que a Trindade econômica não apenas revela a Trindade imanente, mas constitui sua realidade concreta, de modo que não haja uma identidade trinitária plenamente acabada situada ontologicamente “atrás” da história de Pai, Filho e Espírito? A hipótese não exigiria negar a Trindade imanente em favor da econômica nem reduzir Deus aos acontecimentos do mundo. Significaria recusar a duplicação segundo a qual haveria, de um lado, Deus tal como eternamente é e, de outro, a história na qual esse Deus posteriormente aparece. A imanência poderia ser concebida como a profundidade ontológica da própria economia. Deus não estaria atrás de sua história; seria aquele que é nessa história. A relação entre Pai, Filho e Espírito não expressaria uma estrutura previamente pronta, mas constituiria o próprio modo da existência divina.
A consequência escatológica desse deslocamento é profunda. Se a identidade divina não estiver integralmente concluída antes da história, o futuro deixa de ser apenas o momento em que se manifesta aquilo que Deus sempre foi e passa a participar da determinação de quem Deus é. A consumação não certificaria somente a verdade divina; participaria de sua constituição. Isso altera o estatuto da própria fé. Em Pannenberg, a fé reconhece prolepticamente aquilo que o fim demonstrará ter sido eternamente verdadeiro. Na radicalização aqui sugerida, ela seria confiança no próprio acontecimento futuro de Deus: não simplesmente na futura manifestação de uma verdade já completa, mas na realização da promessa em cuja história a identidade divina está comprometida. A promessa passaria a ocupar, assim, posição ontológica decisiva. Deus não seria fiel porque possuiria, atrás da história, uma propriedade metafísica denominada fidelidade, da qual o cumprimento pudesse ser deduzido; a fidelidade seria o próprio acontecimento mediante o qual Deus permanece aquele que promete. O “Deus de Abraão, Isaac e Jacó” deixaria de designar um ente inicialmente constituído a quem posteriormente sobrevêm determinadas relações e passaria a nomear uma identidade inseparável da história dessas relações.
Nesse horizonte, também fé e descrença precisam ser reconsideradas. Enquanto a divindade estiver integralmente garantida fora da história, ambas podem concorrer historicamente, mas jamais se encontram numa abertura ontológica comum. A fé possui de antemão o resultado correto; a descrença pode ter razões historicamente compreensíveis, porém sua derrota está metafisicamente decretada. Se, ao contrário, a verdade de Deus possuir efetivamente futuro, a abertura epistemológica encontra uma correspondência na própria abertura da realidade. Isso não significa transformar fé e descrença em posições epistemicamente equivalentes: a fé pode invocar testemunhos, acontecimentos, tradições e, sobretudo, a ressurreição como razões para confiar na promessa. O que desaparece é a possibilidade de recorrer, antes da consumação, a uma realidade metafisicamente concluída para garantir antecipadamente o resultado. A descrença deixa de precisar ser compreendida simplesmente como deficiência diante de uma verdade pronta e pode ser entendida como possibilidade inteligível no interior de uma história ainda aberta; a fé, por sua vez, deixa de significar posse antecipada de uma proposição ontologicamente assegurada e passa a significar confiança e participação na história da promessa. Crer torna-se performativo: a práxis cristã já não é mera consequência secundária de uma verdade previamente possuída, mas pertence ao modo histórico de sua realização.
Aqui aparece, porém, a objeção mais difícil: se a história participa da constituição da verdade de Deus, essa história pode fracassar? Uma resposta simplesmente negativa parece exigir que se explique por que a consumação é necessária, e qualquer explicação que invoque uma determinação divina já integralmente constituída — fidelidade, onipotência, amor ou qualquer essência capaz de garantir antecipadamente o resultado — ameaça reintroduzir aquilo que a radicalização pretendia problematizar. A história receberia novamente seu desfecho daquilo que Deus já é antes dela: recuperaria abertura fenomenológica, mas perderia abertura ontológica. Entretanto, a alternativa entre essência previamente garantidora e fracasso absoluto talvez constitua um falso dilema. Há uma terceira possibilidade: conceber uma necessidade que não anteceda o acontecimento, mas emerja dele. A fidelidade não seria uma propriedade metafísica anterior à promessa, mas a consistência interna mediante a qual uma história permanece identificável como aquela história. A necessidade seria narrativa e retrospectiva, não causalmente predeterminante: determinados acontecimentos poderiam tornar-se necessários não porque fossem inevitáveis antes de ocorrer, mas porque, uma vez ocorridos e integrados à história, não poderiam ser retirados dela sem alterar aquilo que essa história veio a ser.
É precisamente nesse ponto que a releitura žižekiana de Hegel se torna particularmente fecunda. Em Menos que nada, Žižek combate a representação de uma dialética na qual o resultado estaria secretamente contido no princípio. A necessidade hegeliana, em sua leitura, não precisa significar que aquilo que ocorreu estava predeterminado desde o início; pode surgir retroativamente, quando o resultado de um processo contingente reorganiza suas próprias pressuposições e permite compreender como necessária uma história cuja necessidade não existia previamente como roteiro (Žižek, 2013). O resultado não executa simplesmente uma essência originária: ao realizar-se, transforma o campo no qual aquilo que o precedeu pode ser compreendido. Essa lógica oferece uma mediação importante para a hipótese aqui ensaiada. A consumação não precisaria decorrer de uma essência divina que contivesse antecipadamente seu resultado; poderia ser o acontecimento a partir do qual a história trinitária adquirisse retrospectivamente uma consistência que não possuía como necessidade prospectiva. O futuro não modificaria causalmente o passado nem converteria falsidades pretéritas em verdades, mas alteraria a determinação dos acontecimentos no interior da história que eles vieram a constituir. Aquilo que ocorreu contingentemente poderia adquirir, retrospectivamente, o estatuto de momento irredutível da identidade realizada.
A contribuição de Žižek permite, portanto, pensar necessidade sem predeterminação, mas não elimina inteiramente a questão que nos interessa. Há ainda uma dependência daquilo que poderíamos chamar de operação de totalização: para que a contingência adquira retrospectivamente a forma da necessidade, é preciso que haja uma configuração realizada a partir da qual as pressuposições sejam reorganizadas. Essa configuração não precisa ser uma totalidade reconciliada no sentido ingênuo de uma harmonia final — a negatividade continua constitutiva na leitura žižekiana de Hegel —, mas permanece necessário algum resultado a partir do qual se possa dizer o que aquela história veio a ser. Algo semelhante, embora por outro caminho, acontece em Pannenberg: a consumação fornece o horizonte a partir do qual o sentido da história pode ser definitivamente estabelecido. Em ambos, o ponto de partida é profundamente diferente, mas subsiste uma gramática segundo a qual a identidade recebe sua determinação última a partir de uma configuração final. E aqui talvez se encontre um limite mais profundo do próprio caminho que vínhamos percorrendo: ao abandonar a essência como fundamento anterior, corremos o risco de substituí-la pela totalidade como fundamento posterior. A identidade continua exigindo uma garantia, apenas deslocada da origem para o fim.
É precisamente esse ponto que exige uma radicalização adicional. Talvez a alternativa à substância não precise ser a totalidade, e talvez identidade não precise significar algo que somente se torna plenamente consistente quando uma história pode finalmente ser contemplada como um todo. A crítica pós-estrutural à metafísica da presença permite formular essa suspeita. A différance derridiana pensa simultaneamente diferença e diferimento: aquilo que algo é não se encontra integralmente fechado numa presença autossuficiente, porque sua identidade se constitui por relações diferenciais e por uma temporalidade atravessada pelo que já não está e pelo que ainda não chegou (Derrida, 1991). Transportar simplesmente essa lógica para a teologia seria indevido; mas ela permite perguntar se a identidade divina precisa ser garantida por uma presença plena em qualquer de suas modalidades — como essência na origem ou como totalidade no fim. Se a diferença é constitutiva, Pai, Filho e Espírito não são três identidades completas que posteriormente entram em comunhão, e a unidade divina não precisa designar nem uma substância que precede suas diferenças nem um Todo que finalmente as recolhe numa presença reconciliada. A identidade pode ser concebida como consistência relacional sem fechamento.
Esse deslocamento obriga também a repensar a própria ideia de consumação. Talvez tenhamos permitido que a gramática hegeliana do argumento aproximasse excessivamente consumação e totalidade. Pannenberg depende da totalidade da história para a determinação definitiva de sua verdade; Žižek nos oferece uma forma muito mais sofisticada de compreender a retroatividade do resultado, mas ainda pressupõe uma configuração a partir da qual o processo pode ser reinscrito. A radicalização aqui proposta deve assumir essa herança e, simultaneamente, criticá-la. Consumação não precisa significar totalização. O eschaton não precisa ser o ponto em que todas as diferenças encontram finalmente um lugar numa estrutura fechada a partir da qual nada mais possa vir. Poderia significar plenitude da relação sem abolição de sua abertura, cumprimento da promessa sem transformação do porvir em presença esgotada. Nesse caso, a consumação não seria o fim da futuridade, mas sua transfiguração: o momento — se ainda pudermos chamá-lo assim — em que o futuro deixa de ameaçar a identidade porque a própria identidade já não depende do fechamento para permanecer fiel a si mesma. O Reino não seria o instante em que Deus finalmente deixa de possuir futuro, mas a plenitude de uma relação cuja fecundidade não se esgota na chegada do fim.
Essa distinção entre futuro e porvir torna-se, então, teologicamente decisiva. “Futuro” ainda pode designar aquilo que não está presente agora, mas que um dia chegará e se tornará presente; uma vez realizado, deixará de ser futuro. O “porvir”, ao contrário, pode designar uma abertura constitutiva que não se deixa absorver completamente pela presença. Isso não significa adiamento indefinido do cumprimento: o porvir designa, antes, a inesgotabilidade da relação mesmo em sua plenitude. Se a futuridade pertence realmente ao modo de ser de Deus, ela não pode desaparecer justamente quando Deus alcançar sua consumação, pois isso significaria que Deus possuiria futuro apenas enquanto ainda não fosse plenamente aquilo que é. A eternidade precisa, portanto, ser pensada não apenas contra uma presença imóvel anterior à história, mas também contra uma totalidade posterior que finalmente a encerra. Ela poderia designar a consistência inesgotável de uma identidade que existe apenas na relação, permanece fiel através da diferença e não necessita de uma presença finalmente fechada para continuar sendo aquela identidade. Em vez de “a eternidade como verdade da totalidade do devir”, a formulação mais radical seria a eternidade como abertura inesgotável de uma relação cuja consistência não depende de sua totalização. A consumação seria plenitude sem fechamento; o Reino, cumprimento sem supressão do porvir.
É aqui que a própria noção de existência divina se transforma mais profundamente. Dizer “Deus existe” deixa de funcionar exclusivamente como proposição acerca de um ente supremo cuja identidade poderia ser estabelecida independentemente de sua história. Talvez fosse preciso dizer, de maneira mais arriscada, que Deus acontece. Não porque Deus seja produzido causalmente pelo mundo ou reduzido a uma sequência contingente de eventos, mas porque sua identidade não pode ser separada do acontecimento de suas relações. Se Deus é amor, o amor não é uma substância que primeiro existe e depois começa a amar; existe efetivamente na relação. Se Deus é fidelidade, essa fidelidade não é simplesmente propriedade anterior às promessas, mas acontece na permanência da promessa. Se Deus é Trindade, Pai, Filho e Espírito não são portadores de uma unidade situada antes de suas relações, mas a unidade que acontece como diferenciação, comunhão, entrega e reconhecimento recíprocos. Isso permite recuperar também a categoria de essência sem simplesmente eliminá-la: essência poderia nomear a consistência da relação, e não um fundamento anterior a ela. A pericórese, por sua vez, deixaria de ser apenas manifestação de uma unidade metafisicamente pressuposta e poderia ser pensada como o próprio modo pelo qual a unidade acontece sem abolir a diferença.
Uma teologia assim não emerge num vazio intelectual, embora a arquitetura específica aqui proposta não possa ser identificada com nenhum de seus interlocutores. Catherine Keller articula relacionalidade processual, indeterminação e pensamento pós-estrutural numa teologia do devir em que relação e interdependência deixam de aparecer como acidentes ocorridos a entidades previamente autossuficientes (Keller, 2014); Roland Faber radicaliza, em chave processual, a linguagem do devir de Deus e da relacionalidade divina (Faber, 2017). John D. Caputo desloca a linguagem sobre Deus em direção ao acontecimento, à promessa, ao risco e ao “talvez”, questionando uma soberania metafísica capaz de garantir antecipadamente o porvir (Caputo, 2013), enquanto Richard Kearney pensa o “Deus que pode ser” e substitui a atualidade metafísica fechada por uma hermenêutica da possibilidade (Kearney, 2001). Oord torna teologicamente séria a abertura do futuro, ainda que preserve no amor uma determinação fundamental da identidade divina (Oord, 2026). Žižek, por sua vez, fornece a gramática filosófica da necessidade retrospectiva sem predeterminação, enquanto Derrida impede que essa necessidade seja imediatamente convertida numa nova metafísica da totalidade. A proximidade com todos eles é real; a diferença, entretanto, também precisa ser explicitada. A hipótese aqui apresentada não parte de uma metafísica processual pronta, não dissolve a Trindade numa teologia do acontecimento, não se limita ao problema do conhecimento divino de um futuro aberto e tampouco aplica externamente Hegel ou Derrida à teologia. Ela parte do impasse interno produzido pela relação entre imanência, economia e escatologia em Pannenberg e pergunta até onde suas consequências podem ser levadas.
A originalidade que pode ser reivindicada para essa hipótese é, portanto, arquitetônica e argumentativa, não a pretensão de ter descoberto isoladamente categorias que possuem longas genealogias filosóficas e teológicas. O percurso parte da constituição relacional das pessoas divinas em Pannenberg e do limite que a essência ainda impõe a essa relacionalidade; identifica a mesma estrutura em sua escatologia, na qual a história está aberta, mas a divindade não; mostra como isso produz uma assimetria entre fé e descrença; testa o deslocamento oferecido pelo teísmo aberto; radicaliza a identidade entre imanência e economia até que a futuridade alcance a própria identidade divina; formula a hipótese de uma necessidade narrativa emergente; encontra em Žižek uma lógica capaz de explicar como a contingência pode adquirir necessidade retrospectivamente sem ter sido predeterminada; e, por fim, dirige a crítica contra a própria dependência dessa solução em relação à totalização. Derrida e a sensibilidade pós-estrutural permitem então formular aquilo que talvez seja o passo mais radical: nem essência anterior, nem Todo posterior; identidade como consistência relacional sem fechamento, consumação sem totalização e eternidade como abertura do porvir.
Pannenberg chega muito perto desse limiar precisamente porque sua compreensão relacional das pessoas, sua insistência na historicidade da revelação e sua lógica da prolepse concedem ao futuro um peso que uma ontologia clássica dificilmente poderia absorver. Quando esse movimento ameaça alcançar a própria divindade, contudo, uma salvaguarda permanece: o futuro decidirá aquilo que Deus sempre foi, a história manifestará uma identidade que, em última instância, não depende dela e as relações constituirão as pessoas sem poder constituir, por si mesmas, a unidade divina. Talvez esse limite não seja uma inconsistência acidental, mas a fronteira metafísica que Pannenberg não pretende atravessar. A radicalização aqui ensaiada começa justamente ao atravessá-la, mas precisa agora reconhecer que simplesmente substituir a essência pela consumação não bastaria: se a identidade somente se tornar consistente quando a história puder ser contemplada como totalidade acabada, teremos deslocado o fundamento sem alterar inteiramente a estrutura que o exige.
É por isso que a expressão “Deus em devir” talvez ainda seja insuficiente. Ela pode sugerir um sujeito previamente constituído chamado Deus ao qual posteriormente acontece o devir. A hipótese aqui desenvolvida é mais radical: não há primeiro uma identidade divina acabada e depois relações, história e futuro; a identidade existe no acontecimento relacional que a constitui. Mas também não há necessidade de postular um momento futuro em que essa identidade finalmente se feche sobre si mesma e deixe de ser exposta à diferença. O devir não é apenas aquilo que acontece a Deus, mas dimensão do modo trinitário de sua identidade; a relação não é propriedade acrescentada à essência, mas o próprio modo pelo qual essência significa; e o porvir não é uma etapa provisória antes da eternidade, mas a forma de uma eternidade que não se totaliza. A fórmula central do argumento pode, então, ser reformulada de modo mais rigoroso: o devir como forma da identidade divina, a relação como forma de sua essência e o porvir como forma de sua eternidade.
Isso não significa que Deus seja produzido pelo mundo, nem que abertura signifique arbitrariedade. Recusar uma identidade plenamente constituída antes da relação não faz da criação causa da divindade; significa rejeitar a sequência ontológica segundo a qual primeiro existe um sujeito completo e apenas depois esse sujeito entra em relações reais. Do mesmo modo, uma história aberta possui memória, compromissos, promessas e continuidades; o fato de sua totalidade não estar pronta não implica que qualquer futuro seja compatível com aquilo que já aconteceu. É precisamente nesse espaço que fidelidade pode ser distinguida tanto da substância imóvel quanto da predeterminação: fidelidade é permanência da relação através da novidade, capacidade de sustentar diferença sem dissolver a continuidade e de permanecer identificável sem transformar identidade em fechamento. A terceira via da necessidade emergente continua, por isso, válida, mas sua necessidade já não precisa culminar numa totalidade reconciliada; pode significar a consistência progressivamente constituída de uma relação cuja identidade jamais necessita abolir o porvir para ser real.
É nesse horizonte que fé, descrença e esperança adquirem sua formulação mais consequente. Enquanto a divindade estiver garantida numa essência situada antes da história ou numa totalidade situada depois dela, a descrença continuará sendo, em última instância, possibilidade epistemológica diante de uma realidade ontologicamente decidida. Se, porém, a verdade de Deus for inseparável de sua história sem depender de um fechamento final que retrospectivamente garanta todos os seus momentos, fé e descrença passam a habitar de maneira mais radical o intervalo entre promessa e cumprimento. A fé não possui o futuro nem o ponto de vista da totalidade; confia na promessa a partir de acontecimentos que interpreta como razões para essa confiança. A ressurreição pode continuar sendo compreendida como prolepse, mas não precisa significar a irrupção antecipada de uma totalidade metafisicamente já acabada: pode ser o acontecimento no qual a promessa adquire densidade histórica suficiente para sustentar a esperança sem eliminar o caráter de porvir daquilo que se espera. A descrença, por sua vez, pode representar a recusa de interpretar esses acontecimentos como promessa capaz de sustentar a esperança escatológica. O conflito entre ambas deixa de ocorrer entre alguém que já possui metafisicamente a verdade e alguém que ainda não a percebeu; passa a ocorrer entre modos distintos de habitar uma história cujo sentido não está disponível de fora de seu próprio acontecer.
A esperança cristã também se modifica. Esperar já não significa aguardar a inevitável manifestação de algo cuja verdade está integralmente protegida fora da história, mas permanecer fiel a uma promessa cujo cumprimento não pode ser separado da história na qual se vive. Esperança e práxis deixam de ser consequências secundárias de uma verdade possuída antecipadamente e passam a pertencer ao próprio modo de crer. E, sobretudo, a consumação já não precisa ser pensada como o instante em que o porvir deixa de existir porque toda realidade finalmente coincide consigo mesma. Se Deus é relação, a plenitude da relação não pode consistir na supressão da alteridade que a torna relação; se Deus é amor, sua consumação não pode significar o momento em que já não há novidade a acolher; se Deus é Trindade, sua eternidade não pode ser uma presença que finalmente neutraliza a diferença entre Pai, Filho e Espírito. A consumação poderia ser, antes, o acontecimento em que a relação deixa de ser ameaçada pelo devir justamente porque sua identidade já não depende da eliminação do devir.
A questão já não seria, portanto, apenas se Deus existe, mas se Deus acontece; não apenas se Deus possui futuro, mas se sua identidade é inseparável do porvir; não apenas se a história revelará o Deus eterno, mas se aquilo que chamamos eternidade pode ser pensado como a consistência inesgotável de uma história trinitária que não precisa terminar em totalização para atingir sua plenitude. Nesse horizonte, a fórmula que Pannenberg não chega a pronunciar pode ser radicalizada mais uma vez. Não cremos simplesmente numa verdade que o fim demonstrará ter estado integralmente concluída desde a eternidade, nem precisamos esperar que uma totalidade final transforme retrospectivamente toda contingência em momento necessário de um Todo reconciliado. Cremos na promessa de uma identidade cuja fidelidade acontece nas relações que a constituem; numa eternidade que não está atrás do tempo como sua negação nem apenas adiante dele como sua conclusão, mas se deixa pensar como abertura inesgotável do porvir. A fé seria, então, a confiança arriscada de que aquilo que agora se apresenta sob a forma histórica, frágil e inconclusa da promessa pode alcançar consumação sem deixar de ser abertura — que a plenitude de Deus não seja o término de sua história, mas a realização de uma fidelidade cuja eternidade consiste precisamente em jamais precisar fechar-se para continuar sendo Deus.
Referências
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RAHNER, Karl. The Trinity. Tradução de Joseph Donceel. New York: Crossroad, 1997.
ŽIŽEK, Slavoj. Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético. Tradução de Rogério Bettoni. São Paulo: Boitempo, 2013.



