quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A recepção global de Calvino e seus descompassos no contexto brasileiro

Nas últimas décadas, conforme analisado por Bruce Gordon em seu capítulo “The Reception of John Calvin in the Twentieth and Twenty-First Centuries”, os estudos calvinianos deixaram de constituir um campo confessional relativamente homogêneo para se configurarem como um espaço plural, marcado por múltiplas abordagens metodológicas, disputas hermenêuticas e deslocamentos geográficos e culturais. Gordon (2019) argumenta que, no período contemporâneo, não há consenso acadêmico acerca dos eixos estruturantes da teologia de Calvino, seja quanto ao estatuto sistemático da predestinação, seja quanto à arquitetura fundamental de seu pensamento, seja ainda quanto à relação entre Calvino e os desenvolvimentos posteriores da ortodoxia reformada. A recepção moderna, portanto, não produz um “Calvino recuperado”, mas uma série de construções interpretativas situadas, nas quais o reformador é continuamente reinscrito em debates teológicos, historiográficos e culturais próprios dos séculos XX e XXI.

Nesse contexto, a partir do mapeamento oferecido por Gordon (2019), é possível identificar a consolidação de distintas linhas interpretativas no campo dos estudos calvinianos. Entre elas, destacam-se as releituras neo-ortodoxas associadas a Karl Barth e Emil Brunner, que reapropriam Calvino como aliado teológico na crítica ao liberalismo teológico, frequentemente produzindo uma leitura de Calvino moldada pelas preocupações sistemáticas do século XX.

Em paralelo, a virada histórico-exegética representada por David C. Steinmetz reinsere Calvino no interior das tradições patrísticas e medievais da interpretação bíblica, combatendo leituras anacrônicas e sublinhando a inserção do reformador em continuidades intelectuais pré-reformadas. A esse movimento soma-se o trabalho decisivo de Richard A. Muller, cuja reconstrução da escolástica reformada contesta o paradigma simplificador do “Calvino contra os calvinistas” e sustenta uma compreensão mais complexa das continuidades e descontinuidades entre Calvino e a ortodoxia reformada posterior.

Gordon (2019) também menciona abordagens sistemáticas e analíticas, como as de Paul Helm, que enfatizam a coerência lógica e filosófica da teologia calviniana, bem como leituras que privilegiam a dimensão retórica, literária e humanista da obra de Calvino, representadas por autores como Brian Gerrish, Olivier Millet e Randall Zachman, os quais mostram que sua teologia não pode ser adequadamente compreendida fora das formas discursivas e das estratégias persuasivas do humanismo renascentista.

A essas abordagens somam-se leituras pastorais e espirituais, como as de Susan Schreiner, que ressaltam o caráter formativo, consolador e prático da teologia calviniana, bem como as contribuições da teologia feminista, inauguradas de modo paradigmático por Jane Dempsey Douglass, que introduzem categorias críticas de gênero e poder, deslocando a recepção de Calvino para além do terreno estritamente doutrinário e inserindo sua obra em análises das estruturas sociais e eclesiais que a atravessam.

Gordon (2019) sustenta ainda que a recepção contemporânea de Calvino não pode ser compreendida sem referência aos circuitos globais de expansão do calvinismo, que deslocaram de modo decisivo o centro de gravidade da tradição reformada para fora da Europa e da América do Norte. A emergência e consolidação de grandes igrejas reformadas no Sul Global não constituem apenas dados demográficos, mas indicam transformações profundas nos modos de apropriação de Calvino, que passa a operar como recurso teológico e capital simbólico em contextos pós-coloniais, plurirreligiosos e marcados por dinâmicas próprias de modernização, desigualdade e reconfiguração identitária.

Gordon (2019) chama atenção ainda para deslocamentos particularmente significativos, como a tradução das Institutas para o árabe, promovida por George Sabra no contexto do Near East School of Theology, em Beirute, destinada tanto a leitores cristãos quanto muçulmanos, o que confere a Calvino o estatuto de um clássico teológico transconfessional, inserido em circuitos de circulação intelectual e de diálogo inter-religioso. Nesse sentido, a circulação global de Calvino não deve ser interpretada como simples difusão de uma tradição europeia, mas como processo de ressignificação, no qual o reformador é continuamente reinterpretado à luz de novos contextos sociais, políticos, culturais e religiosos.


É precisamente nesse ponto que se impõe uma questão crítica no que diz respeito ao contexto brasileiro. Se, por um lado, o Brasil figura, no mapeamento de Gordon, como um dos polos contemporâneos mais relevantes da recepção calviniana, por outro, permanece em aberto — e demanda investigação empírica sistemática — a pergunta acerca do grau de institucionalização acadêmica e do rigor historiográfico com que Calvino é efetivamente estudado no país. A forte presença institucional do calvinismo no campo eclesiástico brasileiro não pode ser automaticamente tomada como indicador de maturidade acadêmica proporcional no campo da pesquisa histórica e teológica.

Com frequência, a figura de Calvino parece ser apropriada de modo seletivo no espaço eclesial e público, mobilizada em debates confessionais contemporâneo e reduzida a alguns tópicos emblemáticos, especialmente a predestinação e os assim chamados cinco pontos, sem que isso se traduza necessariamente em um engajamento consistente com a complexidade histórica, retórica, pastoral e intelectual de sua obra, tal como reconstruída pela pesquisa internacional contemporânea.

Nesse sentido, mais do que um diagnóstico fechado, impõe-se aqui um programa de pesquisa: avaliar, com base em dados institucionais, bibliográficos e historiográficos, se há — ou não — um descompasso estrutural entre a centralidade eclesial de Calvino no Brasil e a consolidação de uma tradição acadêmica capaz de dialogar criticamente com autores como Steinmetz, Muller, Gerrish, Zachman, Schreiner, Douglass e o próprio Gordon. Tal investigação permitiria não apenas confirmar ou refutar a hipótese aqui levantada, mas também mapear com maior precisão o lugar efetivo do Brasil no campo global dos estudos calvinianos.

Referências

GORDON, Bruce. The Reception of John Calvin in the Twentieth and Twenty-First Centuries. In: HOLDER, R. Ward (ed.). John Calvin in Context. Cambridge: Cambridge University Press, 2019, p. 427–435.

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