O capítulo “Calvin and Women”, de Elizabeth A. Lehfeldt, integra um projeto historiográfico mais amplo voltado a situar João Calvino em seus contextos sociais, políticos e institucionais, evitando tanto leituras confessionais quanto avaliações normativas retrospectivas. A autora não se propõe a reconstruir o pensamento de Calvino como um sistema teológico coerente, nem a extrair de seus escritos uma doutrina normativa sobre as mulheres. Seu interesse recai, antes, sobre os efeitos históricos concretos da institucionalização do calvinismo sobre a experiência feminina no século XVI, sobretudo no contexto urbano de Genebra. Trata-se, portanto, de uma história social da religião, atenta às mediações institucionais, às práticas disciplinares e às respostas das próprias mulheres diante das transformações religiosas associadas à Reforma (LEHFELDT, 2020).
Um dos eixos centrais do argumento de Lehfeldt (2020) consiste em demonstrar que o calvinismo não operou a partir da pressuposição de uma inferioridade espiritual feminina. Ao contrário, a Reforma partiu da convicção de que as mulheres eram sujeitos morais plenamente imputáveis, capazes de compreender a doutrina, internalizar normas religiosas e responder por suas práticas diante de Deus (coram Deo) e da comunidade. Essa imputabilidade manifesta-se de modo inequívoco nos registros do Consistório de Genebra, nos quais mulheres aparecem recorrentemente como rés, testemunhas e denunciantes. O fato de serem interrogadas, advertidas e instruídas indica que o projeto reformado as reconhecia como agentes responsáveis da vida cristã. Contudo, essa integração moral não se converteu em inclusão institucional simétrica. A imputabilidade espiritual coexistiu com a exclusão das mulheres das instâncias formais de autoridade eclesial, revelando uma assimetria estrutural entre responsabilidade religiosa e poder simbólico.
Essa assimetria articula-se à centralidade assumida pela oikonomia doméstica no interior do calvinismo. Lehfeldt (2020) mostra que a Reforma não apenas deslegitimou o monasticismo como forma legítima de vida cristã, mas também suprimiu quase todas as alternativas religiosas femininas fora do matrimônio. O lar passou a ser concebido como o espaço privilegiado da vocação feminina, microcosmo da ordem social e eclesial, no qual a mulher assumia papel decisivo na reprodução moral da comunidade. Essa reorganização não se fundamenta em uma doutrina explícita de inferioridade ontológica das mulheres, mas em uma racionalidade funcional que associa autoridade pública, visibilidade e governo ao masculino, enquanto atribui às mulheres a gestão cotidiana da piedade e da vida moral. Nesse sentido, Calvino aparece menos como um inovador radical em matéria de gênero e mais como um reformador que reorganiza hierarquias herdadas, administrando-as de modo compatível com as exigências pastorais, eclesiais e políticas de um novo regime religioso.
É nesse quadro que devem ser compreendidas as exceções femininas reconhecidas pela tradição reformada. Figuras como profetisas bíblicas ou mulheres de alto estatuto político não funcionam, em Calvino, como precedentes normativos para uma reorganização da ordem eclesial (ordo ecclesiae), mas como economias extraordinárias da soberania divina. Lehfeldt (2020) mostra que mulheres como Jeanne d’Albret, rainha de Navarra, puderam exercer protagonismo religioso precisamente porque dispunham de capital político capaz de produzir efeitos institucionais concretos. A adesão pública de Jeanne ao calvinismo, assim como a atuação anterior de sua mãe, Marguerite de Navarre, revela uma genealogia feminina da Reforma que operou por meio da patronagem, da mediação cultural e da intervenção política indireta. A relativa abertura de Calvino a essas figuras não implica revisão do princípio hierárquico, mas expressa uma prudência pastoral e política orientada pela estabilidade e pela consolidação da Reforma em contextos específicos.
O contraste com o caso de Marie Dentière torna esse limite ainda mais claro. Diferentemente de Jeanne d’Albret, Dentière não dispunha de posição política privilegiada nem de acesso direto aos centros de poder. Sua atuação foi percebida como problemática não por envolver piedade ou engajamento religioso, mas por reivindicar explicitamente o direito das mulheres de produzir comentário teológico e exercer instrução pública. Lehfeldt sugere que foi precisamente essa pretensão à autoridade interpretativa que suscitou o desconforto de Calvino. O caso de Dentière funciona, assim, como exemplo-limite: mulheres podiam ler a Escritura, aprender catecismo e viver piedosamente; o que lhes era negado era a autorização pública para falar em nome da Palavra de modo normativo. O limite decisivo da participação feminina no calvinismo não se estabelecia no acesso à Bíblia, mas na autoridade eclesial derivada desse acesso.
A análise do Consistório ocupa lugar central nesse diagnóstico. Lehfeldt (2020) mostra que as mulheres encontraram o calvinismo não apenas como horizonte espiritual ou espaço de adesão voluntária, mas também como instância de responsabilização compulsória. O Consistório — órgão central da disciplina reformada, composto por pastores e anciãos leigos — funcionava como tecnologia de governo religioso encarregada de examinar crenças, regular práticas e formar sujeitos piedosos. Nos primeiros anos de funcionamento, mulheres foram interrogadas de forma desproporcional sobre frequência ao culto e memorização de orações e credos. Longe de indicar marginalização simples, essa assimetria revela centralidade estratégica: partia-se do pressuposto de que as mulheres, por sua posição na vida doméstica, estavam mais fortemente ligadas às práticas católicas herdadas e, portanto, eram decisivas para o êxito ou o fracasso da Reforma no plano cotidiano.
A crítica de Lehfeldt (2020) ao Consistório não assume a forma de condenação normativa, mas de análise relacional. Ao insistir que qualquer leitura abrangente produz um mixed picture, a autora evidencia uma racionalidade de gênero não tematizada, na qual as mulheres são simultaneamente reconhecidas como sujeitas morais plenas e tratadas como alvos privilegiados da normalização religiosa. O controle intensificado não decorre de desprezo pela capacidade feminina, mas da expectativa de que elas internalizassem, transmitissem e estabilizassem a nova piedade reformada. Trata-se, portanto, de uma inclusão assimétrica, na qual centralidade e vigilância caminham juntas.
É precisamente nesse ponto que o argumento de Eleni Varikas oferece uma mediação teórica decisiva. Ao analisar a naturalização da dominação na teoria política moderna, Varikas (2003) demonstra que a modernidade não elimina hierarquias herdadas, mas as reconstrói sob a forma de “ordens naturais”, deslocando sua legitimação do plano teológico explícito para o registro da natureza, da função e da evidência social. A hierarquia entre os sexos, nesse contexto, não precisa mais ser justificada como inferioridade ontológica, bastando ser apresentada como diferenciação funcional inscrita na ordem do mundo. Esse diagnóstico permite compreender como o calvinismo pôde afirmar simultaneamente a igualdade espiritual das mulheres e sua exclusão das instâncias de autoridade pública sem experimentar essa tensão como contradição.
Lido à luz de Varikas (2003), o argumento criacional mobilizado por Calvino nos comentários às epístolas pastorais aparece menos como fundamento metafísico da dominação masculina e mais como operador de naturalização de uma ordem eclesial já funcionalmente estabelecida. A “ordem da criação” não funciona aqui como núcleo dogmático da teologia reformada, mas como linguagem de estabilização normativa de papéis sociais em um contexto de reorganização profunda da vida religiosa. Trata-se de um uso teológico da criação que não funda a dignidade ou a salvação, mas regula a visibilidade, a autoridade e o governo.
Essa leitura permite compreender o Consistório como dispositivo central dessa naturalização. Ao interpelar as mulheres como guardiãs naturais da piedade doméstica, o regime disciplinar genebrino reforça a associação entre gênero, moralidade e vida cotidiana. Não se trata de repressão direta, mas de produção de disposições, hábitos e afetos, operando no nível da vida ordinária. Nesse sentido, ainda que não utilize o vocabulário moderno da biopolítica, o calvinismo genebrino antecipa formas de governo da vida que incidem diferencialmente sobre homens e mulheres, precisamente porque os interpela a partir de funções consideradas naturais.
Outro elemento decisivo do capítulo de Lehfeldt (2020) — agora iluminado por essa mediação teórica — é a persistência da devoção católica feminina. A ascensão do calvinismo não garantiu a obliteração imediata das práticas devocionais católicas entre mulheres leigas. A devoção à Virgem Maria e ao culto dos santos permaneceu viva, apesar da vigilância do Consistório. Os registros que indicam um número significativamente maior de mulheres convocadas por práticas marianas revelam resistência cotidiana, silenciosa e afetivamente densa. O calvinismo, assim, não apenas disciplinou a vida feminina, mas também produziu perdas simbólicas profundas, ao eliminar formas de devoção que haviam estruturado a experiência religiosa de muitas mulheres.
No balanço final, Lehfeldt (2020) insere o calvinismo em um padrão mais amplo da modernidade religiosa. Como outros movimentos reformadores do período, ele abriu inicialmente espaços de participação feminina — ensino, escrita, engajamento religioso — que foram progressivamente fechados à medida que o movimento se institucionalizou. Esse fechamento não é apresentado como traição moral, mas como efeito estrutural da estabilização institucional. O capítulo se encerra reafirmando a ambivalência constitutiva da experiência feminina do calvinismo: ao mesmo tempo em que o movimento criou oportunidades inéditas de engajamento religioso, alfabetização e protagonismo, também instituiu mecanismos disciplinares rigorosos e suprimiu práticas devocionais historicamente centrais.
É nesse ponto que assumo explicitamente o gesto teórico que orienta este texto: pensar “Calvino contra Calvino”. Isso não significa opor um “verdadeiro Calvino” a um “falso Calvino”, nem corrigir retrospectivamente o reformador à luz de sensibilidades contemporâneas. Significa, antes, explorar as tensões internas da própria tradição reformada, colocando em diálogo crítico a teologia da Palavra, central nas Institutas da Religião Cristã (1559), e os arranjos eclesiais e disciplinares derivados de leituras contextuais das epístolas pastorais. Aproximo-me de Calvino justamente ao recusar sua absolutização, tratando-o como autor situado, cuja obra permanece aberta a reinterpretações imanentes.
Quando afirmo que, no calvinismo, a autoridade da pregação do Evangelho não deriva do ofício nem do gênero, mas da própria Palavra mediada pelo testemunho interior do Espírito (SOUZA, 2020), não atribuo essa tese a Lehfeldt, nem a encontro formulada explicitamente em Calvino. Trata-se de uma inferência teológica construída a partir dos próprios pressupostos da Reforma, especialmente da analogia fidei e da doutrina do testimonium Spiritus Sancti internum. A leitura dos comentários de Calvino às epístolas pastorais, longe de corrigir as Institutas, evidencia os limites históricos da aplicação de seus princípios, mostrando como a hierarquia de gênero foi naturalizada como norma eclesial ordinária sem jamais se tornar um artigo central da fé reformada.
Ao recuar genealogicamente ao cristianismo primitivo (cf. PANI, 2017), argumento que a exclusão feminina das estruturas de poder eclesial não pertence ao núcleo necessário do Evangelho, mas resulta de processos históricos de institucionalização e naturalização da dominação . As lideranças femininas documentadas no Novo Testamento e na patrística não funcionam aqui como idealização das origens, mas como instrumento crítico de desnaturalização. O objetivo não é restaurar um passado supostamente puro, mas mostrar que aquilo que hoje se apresenta como teologicamente necessário é, na verdade, historicamente contingente.
Esse deslocamento permite compreender o calvinismo como tradição estruturalmente aberta, atravessada por tensões internas que impedem sua totalização normativa. Pensar “Calvino contra Calvino” não significa abandonar a tradição reformada, mas levá-la a sério em sua potência crítica, recusando sua fossilização em arranjos disciplinares contingentes. É precisamente nesse sentido que uma revisitação crítica de Calvino adquire implicações pastorais concretas para o protestantismo brasileiro contemporâneo. Em contextos marcados por conservadorismo de gênero, a exclusão feminina das estruturas de poder é frequentemente apresentada como fidelidade incontestável à Reforma. Uma leitura genealogicamente informada mostra que essa exclusão resulta de processos históricos específicos, e não de uma exigência necessária da teologia da Palavra. Recuperar essa distinção não implica romper com a tradição reformada, mas reinscrevê-la criticamente em fidelidade ao próprio Evangelho que a Reforma afirmou proclamar.
Referências
CALVINO, John. Commentary on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon. Translated by William Pringle. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1856. Disponível em: https://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom43.html . Acesso em: 21 jan. 2026.
LEHFELDT, Elizabeth A. Calvin and women. In: Holder, R. Ward (org.). John Calvin in context. Cambridge: Cambridge University Press, 2020. p. 147–162.
PANI, Giancarlo. As “mulheres diácono” na era apostólica e subapostólica. IHU On-Line, São Leopoldo, 25 ago. 2017. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/571017-as-mulheres-diacono-na-era-apostolica-esubapostolica-artigo-de-giancarlo-pani . Acesso em: 10 nov. 2019.
SOUZA, Robson da Costa de. A tradição calvinista é intolerante? Uma breve contribuição à análise crítica da autorreferencialidade reformada. Reflexão, Campinas, v. 45, e204792, 2020. DOI: 10.24220/2447-6803v45e2020a4792.
VARIKAS, Eleni. Naturalização da dominação e poder legítimo na teoria política clássica. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 11, n. 1, p. 121–135, 2003.

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